Exemplos podem ser guias para que todas as participantes saiam do prêmio melhores e mais fortes

Fernando Nogueira*

Compartilhar experiências é um jeito de passarmos por 2020 juntos e continuar, mesmo nesse cenário ainda mais desafiador, trabalhando para aprimorar o fortalecimento de nossas instituições, que é também um dos principais objetivos do Prêmio Melhores ONGs do Brasil. Nesse sentido, a experiência das 100 organizações do país pode servir de aprendizado para todas as outras. Elas não representam os únicos modelos certos a seguir, mas trazem exemplos de boas práticas que podem ser guias importantes.

Os critérios de classificação que utilizamos dizem, basicamente, que as melhores ONGs são aquelas que: têm missão clara; possuem causa e estratégias consistentes com a missão; são apoiadas por uma ampla gama de pessoas, comunidades e organizações; têm práticas de gestão sistematizadas e transparentes; e trabalham com múltiplas fontes de sustentabilidade e legitimidade organizacional. A intenção é que a própria participação no prêmio já seja uma ferramenta de aprimoramento de processos internos e fortalecimento institucional das organizações que se inscrevem.

As 100 melhores tiveram, nas edições anteriores, uma nota 14% maior que as finalistas e as áreas de causa e estratégia (17%) e captação e sustentabilidade (18.5%) foram as que fizeram a maior diferença nessa classificação final. É observada, ao longo dos anos, uma evolução nas práticas das ONGs participantes, tanto nos aspectos qualitativos quanto nos quantitativos. Apesar disso, ainda há significativa parcela das participantes que ainda demonstram certa dificuldade na hora de juntar seus indicadores e dados. É bem claro para quem avalia a diferença entre uma organização que se planejou e outra só pensou naquela questão na hora de preencher o formulário, já no final do prazo. Essa sistematização de práticas ainda é um ponto que precisa de atenção, lembrando sempre que o que faz a diferença é o conteúdo, não a forma – não precisa contratar um super consultor ou designer para ter um plano de comunicação bem avaliado.

Ter em quem se espelhar certamente pode ajudar e, por isso, separamos abaixo algumas características que as melhores ONGs do país têm em comum.

Lição 1: clareza e planejamento estratégico
As ONGs que se destacam em termos de gestão costumam ter clareza sobre seus objetivos e também na hora de demonstrar seus principais resultados. Elas fazem um bom planejamento estratégico envolvendo seu público alvo. Também conseguem desenvolver mais inovação e tecnologia social. Outro diferencial é que elas avaliam o desempenho da gestão de toda a equipe, incluindo os gestores, o que permite que estejam sempre aprimorando seus processos.

Lição 2: diversas fontes de captação e doadores regulares
As melhores ONGs também têm em comum o fato de terem mais fontes de captação e dependerem menos de uma única fonte. Dessa forma, se um contrato termina, elas não sofrem tanto e consegue sobreviver – pelo menos 80% delas possuem essa base larga de fontes . Elas também têm mais doadores recorrentes, ainda que a média indique que poucas captam com muita gente e a maior parte com poucos.

Elas conseguem fazer bons planos de captação de recursos e destinar mais dinheiro para a causa do que para sua própria administração e operação. Só em 2019, as 100 melhores conseguiram captar, juntas, R$ 4,4 bilhões, sendo que 90% delas têm empresas e indivíduos como principais fontes – mobilizando cerca de 850 mil pessoas e 12 mil empresas.

Lição 3: comunicação e transparência
Comunicação e transparência têm tudo a ver com uma boa captação de recursos e as melhores se destacam pela boa atuação nessas frentes, sendo site e redes sociais os principais canais para essa divulgação. O Facebook ainda domina esse segmento e 100% das melhores (e quase todas as finalistas) tem uma conta na rede. Somente metade delas utilizam o Twitter e 20 a 30% também movimentam perfis no Instagram.

Com relação à transparência, 99 entre as 100 melhores do ano passado tinham um plano de comunicação e todas publicam relatório de atividades anual e demonstrativos financeiros. A maior parte também tem boletim regular e divulga o seu estatuto no site. Ou seja, deixa tudo disponível, para quem quiser checar e, assim, aumenta a confiança dos doadores.

Queremos que as ONGs possam aprender entre pares, ou seja, umas com as outras. Por isso, começamos no ano passado a enviar uma devolutiva a todas as ONGs participantes, com avaliações personalizadas. Também divulgamos, com a autorização dos autores, documentos que consideramos bons referenciais. A intenção é que as gestões possam usar essas informações em seus processos para que, cada vez mais, a participação no prêmio seja também um instrumento pedagógico de melhoria constante dessas organizações que lutam para manter acesa a nossa vontade de mudar o mundo.

*Ativista, professor e pesquisador da Fundação Getúlio Vargas (FGV), presidente do Conselho do Instituto Doar e responsável pelo Prêmio Melhores ONGs.