ONGs tendem a conseguir mais apoio quando mostram publicamente as suas movimentações

A transparência na gestão é bastante positiva para as organizações do terceiro setor. O apoio, tanto da sociedade quanto de empresas e do governo, tende a crescer à medida em que as ONGs mostram que trabalham de forma profissional, transparente e honesta. Essas foram algumas das conclusões do trabalho “Uma investigação dos efeitos da transparência no terceiro setor do Brasil”, apresentada neste semestre, por um brasileiro, na universidade irlandesa Griffith College.

O estudo realizado pelo pesquisador Wesley Braga usou os dados do Prêmio Melhores ONGs de 2017, quando aconteceu a primeira edição da premiação. O pesquisador explicou que esse é um setor que depende bastante de doações de pessoas e empresas e, por isso, precisa passar credibilidade e inspirar confiança. Segundo ele, um escândalo envolvendo uma ONG pode afetar negativamente todas as outras, assim que essa notícia ganha publicidade, como observado em outros estudos no Brasil e em outros países. Por isso, é de interesse geral que haja um movimento ou iniciativas que promovam transparência dentro do próprio setor.

Além disso, de acordo com o pesquisador, a aplicação de práticas de transparência, principalmente a divulgação do relatório de atividades e demonstrações financeiras no site das organizações, costuma ajudá-las a se aproximarem da sociedade e das empresas que as apoiam. “Uma das ONGs que eu entrevistei contou que quando mostrou para a sua principal financiadora as suas dificuldades e fragilidades, a empresa se engajou mais no trabalho, aumentou o montante doado para os projetos e se envolveu mais com a causa. Esse exemplo serve para nos mostrar que transparência não é só sobre colocar demonstração financeira no site, mas também sobre ter um relacionamento mais próximo com quem apoia o trabalho”, explica Wesley.

O pesquisador investigou as principais práticas de transparência das organizações da sociedade civil no Brasil e analisou os efeitos financeiros e não financeiros delas. Com base em suas análises e entrevistas, ele elencou algumas vantagens, confirmadas pela maioria dos entrevistados, de serem adotadas práticas de transparência. Algumas delas são:

    – atrair mais indivíduos que pretendem doar dinheiro ou ajudar a organização com trabalho voluntário;
    – maior facilidade de estabelecer parcerias com as empresas, que se tornam mais propensas a firmar parcerias com ONGs transparentes;
    – melhoria da reputação, conquistando e mantendo a confiança da sociedade;
    – mais chances de conseguir recursos públicos;
    – mais engajamento dos funcionários;
    – melhor segurança na tomada de decisões.

Em relação aos efeitos negativos da transparência para essas organizações, 58% dos entrevistados afirmaram que a manutenção dos padrões de transparência aumenta seus custos. No entanto, tanto para o pesquisador quanto para os outros 42% das ONGs ouvidas, a transparência não é um gasto, mas sim um investimento, onde os recursos aplicados pagam por si mesmos e trazem mais benefícios.

Entre as práticas de transparência mais comuns nas ações das organizações estudadas, estão: publicação de relatórios anuais, demonstrações financeiras e informações sobre os diretores e conselhos em seus websites, além de um sistema de governança corporativa para dividir o poder da liderança da organização, que entre outras práticas, inclui parecer de auditoria externa e independente das demonstrações financeiras das ONGs.

Prêmio incentiva transparência e fortalece o setor
No Brasil, as práticas de transparência acontecem voluntariamente, sem forte envolvimento do governo nessas regulamentações. “O histórico de ONGs aqui ainda é recente e não existe órgão regulador”, observa Wesley. Por conta disso, segundo ele, os prêmios e certificações, como o Melhores ONGs, funcionam como um incentivo para que o setor invista em transparência e prestação de contas. “Muitas organizações passaram a fazer isso para poder se candidatar ao prêmio, que foi um divisor de águas em relação a esse movimento de transparência”, afirma. Além disso, ele acredita que o prêmio aumenta a motivação das organizações, além de dar a elas mais credibilidade e visibilidade.

Apesar disso, o pesquisador afirma que há espaço para melhorias quanto à qualidade e padronização das demonstrações financeiras dentro do setor no Brasil. “O Conselho Federal de Contabilidade do Brasil poderia trabalhar com um programa de educação em relação à contabilidade no terceiro setor de forma mais difundida. Os processos regulatórios governamentais para parcerias com ONGs também devem ser expandidos para cidades pequenas”, sugere.

Mais pesquisas são bem-vindas
No Brasil, ainda há poucos estudos sobre organizações filantrópicas, ao contrário do que acontece em outros países, onde o setor tem uma maior tradição. Para Wesley, mais iniciativas de pesquisa acadêmica e fortalecimento de uma rede colaborativa dentro do próprio setor são possíveis soluções para melhorar o nível de confiança das pessoas, empresas e governo nessas organizações. “Eu acredito que as ONGs têm papel fundamental na democracia de qualquer país e que é o terceiro setor quem vai encabeçar a mudança que o Brasil precisa”.

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